Max Stirner, mais do que um militante, foi um filósofo do anarquismo na sua vertente individualista.
No que diz respeito à sua influência histórica, a obra de Stirner é fundante da tradição anarco-individualista. A afinidade entre sua obra e o anarquismo reside na rejeição das obrigações políticas e na negação da legitimidade do Estado. Para além da destruição do Estado, Stirner ainda sugere que os indivíduos desconsiderem e fujam das exigências estatais como meios de manter sua autonomia e singularidade.Stirner fez um ataque impiedoso ao mundo moderno e suas formas de dominação, modos religiosos de pensamento, instituições sociais opressivas e nos brinda com uma alternativa radical e “egoísta” na qual a autonomia individual deveria florescer.
Numa época de egolatria consumista, espetáculo televisivos e aparente vitória do individualismo narcisista, parece anacrônico lembrarmos de Stirner e refletirmos sobre sua obra. Mas talvez ele ainda tenha muito a nos dizer, se pensarmos o egoísmo stirneriano como uma forma de autogoverno ou autonomia individual e não como a mera busca de um interesse pessoal.
“Sou o proprietário da minha vontade, e o sou quando sou único. Na unicidade o indivíduo retorna ao seu nada criador, de onde surgiu. Qualquer coisa acima de mim, seja deus, seja o homem, enfraquece o meu sentimento de unicidade e empalidece apenas frente ao sol de minha consciência. Se fundamento minha causa sobre meu eu, o único, ela repousa sobre um criador efêmero, mortal, que se autodevora e então posso afirmar: Todas as coisas nada são para mim.”
Para Stirner, o indivíduo autônomo é aquele que é capaz de fazer prevalecer o poder de sua vontade sobre todas as outras coisas. Sua autonomia se evidencia pela recusa de ser tutelado tanto por outros como, principalmente, pelas instituições. Assim sendo, cabe ao próprio indivíduo desenvolver sua “humanidade” ou, segundo ele, “apossar-se de si”.
O sujeito capaz de autodeterminar-se é o sujeito que reconhece suas vontades e que as torna ações. É esta capacidade de autodeterminação (autonomia) que caracteriza o homem, lhe dá o sentido da humanidade.
Stirner, ao problematizar e enunciar a tese sobre o papel da escola e da educação, em verdade polemiza com a educação da época e, por que não dizer com a atual, já que ambas têm como função específica a conformação das vontades individuais a vontades preconcebidas, em especial, a predeterminada pelo Estado, anulando assim, no indivíduo, o poder sobre sua própria vontade.
A educação, as normas sociais e políticas roubam a soberania da individualidade, separando o homem de si mesmo, colocando seus atributos sobre a individualidade, subjugando-a e apagando-a em favor de um eu social indistinto. Faz com que os atributos individuais se tornem algo estranho e externo ao próprio indivíduo.
Quando o homem se propuser a sentir-se e conhecer-se a si mesmo, atuar segundo sua vontade com plena autonomia e consciência própria, neste dia deixará de ser um objeto estranho e impenetrável para si mesmo, e acabará por dissipar a ignorância que limita e impede seu pleno autoconhecimento.
É surpreendente a clareza e atualidade do pensamento de Stirner, no que diz respeito à questão do poder, da coação e emancipação a que os escolares estão sujeitos. Na atual sociedade de controle, no sistema educacional e escolar, a avaliação desempenha esta função, concedendo a maioridade (o título acadêmico, seja do primeiro, segundo, terceiro ou quarto graus) apenas àqueles que se sujeitam ao regramento preestabelecido. A quem não se submete, a escola faz repetir, o retém por mais tempo até que se submeta ou, em casos extremos, o expulsa – o que significa a marginalidade educativa.
Que é o bem, que é o mal? Eu mesmo sou minha causa: e não sou nem bom nem mau; estas não são para mim, mais que palavras. O divino olha a deus, o humano olha ao homem. Minha causa não é divina nem humana, não é nem a verdadeira, nem a boa, nem a justa, nem a livre: é a minha; não é geral, senão única, como eu sou único. Nada está, para mim, acima de mim.
Em qualquer um dos casos, o que persiste é a submissão da vontade. Seja na sociedade burguesa ou na comunista, ambas buscam impedir o surgimento do “único”, pois este advoga a sua totalidade egoística, própria do indivíduo como unicidade, e não considerado fração de uma sociedade, que o menospreza, humilha e submete.
Quando o cidadão pensou-se livre, mais escravo se encontrava.
De que serve a liberdade se ela não te dá nada?
Se os pensamentos são livres, eu estou dominado por eles, não tenho sobre eles nenhum poder e sou seu escravo.
É de longa data nos meios anarquistas o embate que se tem estabelecido entre o pensamento individualista e o coletivista. Contudo, se há algo que caracteriza o pensamento anarquista, é a sua radicalidade, portanto seria incoerente buscar um meio termo entre a afirmação dessas vertentes.
O verdadeiro homem não está no porvir, não é um objeto, um ideal a que se aspira, senão que está aqui, no presente, existe em realidade, qualquer que seja eu, qualquer coisa que eu seja, alegre ou sofrendo, criança ou velho, na confiança ou na dúvida, no sono ou na vigília, sou Eu. Eu sou o verdadeiro homem.